Devo dizer-vos que dentre os vários contos anteriores, identifiquei-me com este. Sabe-se que Luft se faz dos elementos da Família, da Fantasia, da Natureza para a composição de suas ficções, contudo, um detalhe neste me chamou atenção: a expectativa final. As histórias de O silêncio dos amantes geralmente se referem ao diálogo entre o imaginário individual e a “reveladora” realidade. Encontros me fez confirmar uma meta humana minha, um objetivo nato, um propósito original dos cosmos antes vida...
Eu sempre quis ter asas, desde criança. Viver neste mundo com um sonho próprio e conseguir mantê-lo ao longo da vida é uma tarefa árdua, pois a realidade está sempre presente para nos dizer se ele é ou não possível. Então, onde está a beleza da realidade? – poucos, acredito, refletem sobre isso –, penso que, normalmente, se a perceba no último lugar em que se olha...
Um dia, desejo um lar, alegre, confortável, acolhedor e porque não erótico e distinto? Seria um templo e ao mesmo tempo uma cabana, seu significado dependeria das auras de quem o envolvesse. Um dia, desejo uma pessoa dedicada, imponente, singela, terna e porque não devassa e criativa? Seria um anjo sem asas e ao mesmo tempo um ser humano excitante, seu significado dependeria das escolhas que eu e ela faríamos.
A traição não é a atriz principal, muito menos a coadjuvante, é uma figurante de primeira classe – se existe isso –, na ficção de Luft. Encontros se dedica à dúvida, ao erro, à paixão, ao desejo carnal, ao senso, ao compromisso humano individual de ser feliz. Ser feliz é relativo, acho que concordais comigo. Sentir-se feliz, geralmente, é naquele momento que se pensa estar completo, mesmo tendo algo vos lembrando (realidade) que ainda falta algum tanto para esta condição, todavia naquele instante nada mais importa. Para aqueles que têm um ser humano com um de seus propósitos íntimos, que já viveram ou vivem na companhia de uma pessoa, conhecem a sensação de eternidade que se faz em sua presença. Então, por que a magia se acaba, desgasta-se, banaliza-se? Certamente, saberíeis dizer muitas razões, mas me refiro ao ato de “deixar” a magia esvaecer-se...
Acredito que poucas pessoas – no sentido de que não possa ser a maioria – consigam desvendar um dos vários mistérios do Amor. Sabemos que este sentimento, por mais, magnífico que seja; independente de sua natureza, não se sustenta sozinho. A fé é o requisito primordial para a sua mera existência. A realidade: iludente, instigadora, atraente, luxuosa, convincente, seduz os olhos dos Homens, deixando-os mais humano, menos celestes. Faço um raciocínio rápido e simples: o tangível é deste mundo e o intangível é do outro, que outro? Daquele que não podemos ver, mas que temos certeza que existe por senti-lo...
Eu sempre quis ter asas, desde criança; asas significam liberdade. Quem deseja amar, deseja segurança, confiança, afeto, eternidade. “Que seja eterno enquanto dure”. Pode-se dizer que este ditado seja o discurso de alguns que já não acreditam no amor, cujos confirmaram a “veracidade” da realidade do mundo humano. Porém, vejo outra perspectiva nesse dito: algo motivador, otimista, esperançoso, algo que penso estar inserido implicitamente em Encontros: a expectativa final. Quando uma pessoa deixa de crer – seja qual for o motivo – em uma crença compartilhada, o significado de sua existência se compromete. Este dito lhe dar o poder se ser o dono de uma eternidade – da sua –, enquanto sustentar essa crença dentro de si mesmo, em seu íntimo, esta vos será a realidade...
Encontros me mostra as influências da realidade e do desejo íntimo no marido e na esposa respectivamente. Não a culpo por esconder, voar, seguir e se entregar ao solitário da sacada. Ela, sem a menor certeza de qualquer coisa, ansiava novamente por aquela sensação de completude, que provavelmente encontrara mais cedo em sua vida – ambos queremos nos entregar a um amor livre, dedicado, ardente, surreal, não corrompido pela cruel realidade.
Dênis Michel
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