quarta-feira, 9 de maio de 2012

O menino e o mar



Sua mocidade tinha sido uma continuação natural da infância, simples e feliz, no povoado de pescadores diante do mar, uns poucos veranistas começando a construir casas de alvenaria. Sua vida adulta era assim também, os quatro filhos, o marido ainda apaixonado, rude, mas cheio de bondade. Viviam na casa de madeira que tinha sido da sua avó, ela a neta preferida. A velha deixara por escrito que a casa seria dela.
Nascida na beira da praia, era boa nadadora. Conhecia bem o mar, suas mudanças e caprichos. Via nele uma espécie de amante, de secreto amigo. O melhor lugar do mar era a ilha, onde o pai a levava desde pequena: uma única ilha, ilhota, que o pai alcançava sem aparentar esforço, ótimo nadador. No começo, sob protestos da mãe, a levava nas costas. Ela segurava com força o pescoço dele e ia como pequena sereia de cabelo preto e molhado em cima de um golfinho, e disso brincavam.
Adolescente, nadava tão bem quanto os rapazes. Era alta, musculosa, ombros mais largos que os quadris, e a mãe a criticava pelo corpo de rapaz.  Mas a cabeleira comprida e os peitos garantiam que era mulher, ah, sim.
Apaixonou-se pelo melhor pedreiro da aldeia, casaram e tiveram quatro filhos, todos homens como ele queria. O marido se tornou uma espécie de construtor, fazia casas de veranistas, tinha obreiros sob seu comando, e eram felizes, na felicidade simples dos que curtem as coisas possíveis. Ela ainda nadava. Não tinha perdido a força e o prazer, e a ilhazinha era como uma propriedade sua. Os outros podiam achar esquisito, mas ela não se importava, e o marido nunca tinha pedido que desistisse. Chegava sozinha, deitava numa pedra grande e chata, continuava imaginando que no fundo verde-escuro moravam sereias e animais de fantasia, em cavernas de coral e palácios de vidro, como lhe contava, na infância, seu avô.
Era mais feliz ali, era mais feliz em casa? Ela não sabia. Sendo de natureza prática, habituou-se àquela vida dupla, às alegrias de cuidar da casa, amar o marido, criar os filhos, e o secreto prazer da solidão por uma ou duas horas, de vez em quando – só com o mar, as gaivotas, dois leões-marinhos que moravam ali. Não tinha medo de nada, e mais de uma vez voltou para casa, nadando firme, quando alguma tempestade ameaçava. O marido sabia, os filhos sabiam, era o jeito dela, e ninguém se preocupava.
Por alguma razão, dos quatro filhos amados, o menor era sua alegria especial. Era o mais dela. Talvez por ser o último. Talvez por ser tão parecido com ela, até nos cabelos pretos compridos, que o pai criticava mas ela deixava assim. E parecia adorar o mar, sem medo algum das ondas, gritando de alegria quando ela o erguia nos braços acima das espumas, ainda bebê. Aos três anos, já carregava para além da rebentação quando o mar estava calmo, como o pai tinha feito com ela, nas costas, agarrado ao seu pescoço forte.para a ilha só o levava de barco, porque receava, não sabia bem o quê, mas receava, sabia que era bobagem, coisa de mãe, tolice. Por aquele filho se preocupava como nunca tinha feito com os outros, acordava de noite e ia ver se ele dormia sossegado, se respirava bem. Cada vez que o contemplava, era como se algum milagre o tivesse posto em sua vida, tão forte, tão alegre, tão bonito. E quando ele brincava na beira da água, apesar de sua intimidade com o mar, ela às vezes o abraçava com tanta força que ele protestava, me larga, mãe, me larga!, e os dois riam. Ele a chamava de mãezinha, minha mãezinha, minha mãezinha. Aquele filho lhe parecia o único, embora não descuidasse dos outros.
Um dia, mais inquieta do que de costume com sua vida tão comum e tão boa, largou tudo no começo da tarde, a louça por lavar na pia, a roupa por passar empilhada na cama, os filhos maiores na escola. O menorzinho dormia tranquilo. Uma menina da vizinhança, que vinha ajudar nos trabalhos de casa, arrumava os quartos, e se não conseguisse terminar os trabalhos, ela faria isso ao voltar. Entrou no mar, varou com braçadas decididas e rebentação, e depois de meia hora nadando firme estava no seu refúgio. De longe avistava a praia, a faixa branca da rebentação, as casinhas, as casa maiores dos veranistas que se multiplicavam, e a sua própria casa de madeira escura, com a varanda da qual se chegava direto na areia. Numa vaga euforia, ficou estirada no sol e adormeceu.
Acordou quando quase escurecia. Saltou na água direto, coração disparado, preocupada com a casa, o serviço, o marido que ia chegar, os meninos que deviam estar saindo da escola. o pequeno, ela sabia, estava bem cuidado pela empregadinha que já devia ter passado a ferro toda a roupa.
Mais perto da praia, viu pessoas correndo de um lado para outro, entre as ondas avistou gente apinhada na porta e na varanda da velha casa. Nadou o resto quase sem força nem respiração. Alguma coisa tinha acontecido, quem sabe um acidente com o marido ou um dos rapazes. Quando saía do mar, vieram correndo ao seu encontro, agitando os braços, gritando, chamando. O marido conseguiu recolher seu corpo grande e musculoso quando ela desmaiava.
O filho menor, o bem-amado, nos seus ternos três anos, tinha acordado querendo a mãe. A menina que lavava louça na pia o consolara, mamãe já volta, ela vem já. E continuou no seu trabalho, enquanto a criança brincava na varanda. O resto só conseguiram reconstituir aos pedaços o menininho tinha procurado pela mãe no mar, tinha entrado na água, imaginava que seus bracinhos o levariam como fazia nas costas dela, mas não tinha forças para enfrentar aquelas ondas, nem teria conseguido voltar porque elas o puxavam: o mar o que para si. Só foi encontrado no outro dia, roído de peixes e siris, numa praia ao lado.
Ela nunca mais falou com ninguém. Nunca mais tomou banho sozinha, nem comeu se não lhe davam na boca, e assim rapidamente mergulhou na sombra do esquecimento.
Algum tempo depois o marido se cansou de viver com aquela sombra. A mágoa pelo filhinho perdido o endurecera, não havia perdão nem entendimento no coração dele. Então a deixou com parentes e foi com os outros meninos para a cidade, onde encontrou trabalho, casou de novo, e parecia tê-la esquecido. Ela era memória da dor. Os parentes depois a levaram para o interior, cuidavam dela. O marido, apesar de tudo, sempre mandava o dinheiro necessário para sua alimentação. Era a doida da aldeia, crianças vinham zombar dela quando a sentavam na frente da casa para tomar sol, feito um boneco.
Muitos anos depois, um dos filhos, já homem, procurou por ela, e a encontrou devolvida a sim mesma. Estava lúcida, ainda alta, menos musculosa, e o cabelo todo branco preso na nuca. Só o passado parecia para sempre esquecido e não se falou dele. O filho a levou para a cidade, mas na casa dele ela não se ajeitou, nem reconhecia aquele homem grande com mulher cheirosa e a casa bonita, os filhos mimados e estranhos. Por fim ela a colocou numa clínica, onde viveu o resto de seus anos, calada e distraída de tudo, fazendo incessantemente calções e blusas de criança, num interminável manejar de agulhas de tricô: a avó tinha-lhe ensinado essa habilidade há muitíssimos anos, e na velhice ela a reaprendeu.
Os visitantes a cumprimentavam, que velhinha doce aquela, ereta na sua cadeira, sempre com seu tricô. As enfermeiras a chamavam “a nossa vovozinha”. Não dava trabalho nem estava caduca, apenas gostava de estar sozinha com seu trabalho manual. Sua única mania era uma poltrona diante da janela, de onde se avistava um pedaço de praia e mar, que ela olhava a toda hora largando o tricô no colo, como se estivesse secretamente à espera. 
Alguém haveria de vir daquelas águas, correndo pela areia com suas perninhas curtas. Estenderia os braços chamando minha mãezinha, minha mãezinha – e lhe seria devolvido.


Lya Luft

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