sexta-feira, 11 de maio de 2012

Encontros

Ela teve muito medo de que ele descobrisse, e o que faria ao descobrir. Mas como paixão é gloria e insanidade, consentiu, e encontraram-se, e quando ele insistiu em que tirasse a roupa, da primeira vez ela não quis, fazendo-se de envergonhada."


Acordou com dor nas costas. Não era bem dor, mas um desconforto. Nem era no lugar onde às vezes lhe doía, mas abaixo das omoplatas. Pensou, tenho de começar a fazer ginástica, alongamento, só caminhar três vezes por semana não basta.

– Isso é dos nervos. Você tem de arrumar um amante pra trepar – lhe disse a amiga desbocada –, porque com seu marido sei que você nem trepa mais.

– Trepar a gente trepa – ela respondera sorrindo meio sem graça –, mas com parcimônia – e riram as duas, daquela intimidade de colegiais.

Notou que andava mais inquieta e distraída. Os filhos pareciam mais barulhentos, tudo no marido a irritava, até o barulho de sua mastigação e sua mania de pigarrear. O trabalho estava mais cansativo. Seus pensamentos fugiam mais vezes da realidade que, embora monótona, era um conforto. Este é meu lugar no mundo, pensava, retornando para casa no fim de cada tarde. Esta é a minha tarefa no mundo, pensava, fazendo as compras com a lista do supermercado na mão, o filho menor, já adolescente, empurrando o carrinho, emburrado.

Num outro dia, saindo do banho e olhando-se no espelho nua, examinou-se de frente, o ventre um pouco flácido, os seios nem de longe os seios gregos que o marido beijava com tanto ardor nos primeiros tempos. O cotidiano convívio havia-lhes roubado o fervor. Avaliou seu corpo também de lado, e viu com pavor que havia duas marcas longas espáduas abaixo, das listras nascendo logo debaixo dos ombros e descendo até quase a cintura: convexas, saltadas como cicatrizes enorme, dois dedos de largura.

Tentou tocar-se meio sem jeito, difícil de alcançar, mas conseguiu: aquilo era mágico, ao toque de seus dedos começava a palpitar. Pensou: se for câncer é um câncer muito esquisito, e de tão grande nem adianta falar porque devo estar morrendo mesmo. Mas o rosto estava bom, a pele saudável, a cor razoável, não tinha ar de doente terminal. Decidiu esperar um pouco pra ver no que dava. Sua mãe fazia assim quando eram pequenos: se daqui a três dias continuar doendo, a gente procura o médico.

– Você anda distraída, hein, mãe – lhe disse o filho mais velho um dia.

O marido não percebia nada. Mas ele não costumava mesmo prestar muita atenção. Insatisfeita com tudo, a mulher resolveu trocar a cor de cabelo, de um castanho comum por um quase-vermelho brilhante. Saiu do salão sentindo-se uma rainha egípcia. Quando o marido entrou no fim do dia, ela o aguardava ansiosa por dividir com ele ao menos aquela novidade e, radiante porque achava aquela transformação uma beleza, perguntou assim que o viu na soleira:

– Notando alguma coisa nova, bem?

Ele parou, sorriu inseguro, olhou em torno, olhou para ela, abriu mais o sorriso e finalmente disse:

– Você trocou o tapete?

Ela não se zangou, lembrando quantas vezes fora impaciente com ele, quantas vezes criticara seus gostos e ironizara suas pequenas manias, quantas vezes fora pouco generosa. Aquela era a vida deles. Aquele era o seu lugar no mundo. E não era inteiramente ruim.

Certa vez ela estava pensando em alguma bela coisa erótica, o que há tempos não fazia, sozinha em casa depois do banho, e tocou-se com há muito não se tocava, pensando: Bom, se vou morrer mesmo, ao menos me divirto um pouco antes. Pois os sinais nas costas estavam mais destacados, e o desconforto maior, como um ímpeto que precisasse muito sair dali – então na hora do supremo prazer deu um salto e sentou-se, achou que explodia, e de repente começou a alçar-se acima da cama.

Olhou assustada sobre o ombro esquerdo, e notou que nas suas espáduas se abriram duas asas. Com esforço e um terror inicial, conseguiu aterrissar de novo, quase batera com a cabeça no teto. Andou até o banheiro, com cuidado para não levantar vôo ao menor movimento.

E, quando se contemplou, achou-se belíssima. Achou-se especial. Uma mulher nua com duas asas que logo aprendeu a manejar, abrir, fechar, levantar, dobrar de novo como um leque enorme. E – mais estranho de tudo – não teve medo mas alegria. Era isso: não estava morrendo de câncer. Era mágico, ela estava virando anjo. E a dimensão desse segredo quase a derrubou.

No começo foi difícil acomodar as asas debaixo da roupa, pois mesmo que dobrassem direitinho faziam um certo volume. Começou a usar roupas mais folgadas. E como ninguém em casa ligasse muito pra ela, logo se sentia à vontade com seu segredo.

Mas dava-lhe uma certa pena não ter a quem contar aquilo. O marido, nem pensar. A vida deles estava tão organizada, que não permitiria uma interferência daquelas, nunca se sabia quando as coisas começariam a desmoronar, e aí nada mais poderia conter a ruína. Nem a melhor amiga entenderia. Pois era uma boa mulher, divertiam-se um pouco juntas, mas um assunto assim, estranheza demais, talvez a afastasse.

Iam interná-la com doida; iam querer operar e cortar as asas; iam botar na televisão como mostro; iam isolar e manipular em algum centro de pesquisas; sabe-se lá. Para aliviar a agonia secreta dessa possibilidade, de noite saía para o pátio da casa, abria as asas e voava. Como uma mariposa gigante, sobrevoava o cotidiano, enxergando tudo de outra perspectiva, mais completa e mais vasta.


Num daqueles volteios, descobriu, não muito longe, um homem apenas olhando o céu da sacada de seu apartamento. Gostou dele, gostou daquele seu jeito, e ficou observando, pousada num telhado. Descobriu onde ele vivia; onde trabalhava; por onde andava no cotidiano. E começou a encontrá-lo fingindo que era por acaso, e tomaram juntos um cafezinho, depois foram ao cinema, e finalmente decidiram que estavam apaixonados e tinham de viver aquilo.

Ela teve muito medo de que ele descobrisse, e o que faria ao descobrir. Mas como paixão é gloria e insanidade, consentiu, e encontraram-se, e quando ele insistiu em que tirasse a roupa, da primeira vez ela não quis, fazendo-se de envergonhada.

Em outro dia, porém, ficou mais impaciente e ansiosa, e decidiu arriscar, mas pediu enquanto tirava a roupa:

– Vamos fazer em pé?

E quando, na penumbra, se abraçaram e logo começaram a gemer, e se esfregar, e se procurar, ela sentiu entre horrorizada e feliz que suas grandes asas se desdobravam. Mas o amante não se assustou. Não se afastou. Apertou-se mais a ela, dizendo, vem comigo, vem comigo, vem comigo. 

E abriu suas asas também.

Lya Luft

Nenhum comentário:

Postar um comentário