- Este conto se dedica à mãe da mãe... o que pensais que ela tem a vos deixar? Imaginai!!!
"Naquele instante está tão lúcida quanto eu. Seremos, as duas, cúmplices de algo que ainda preciso descobrir? E ela só está fingindo?"
Minha
mãe disse:
– Hoje você vai comigo visitar sua avó. Não tem quem fique com você,
e você já está grandinha. – e acrescentou: – É quase Natal. Quero levar algumas coisas para ela.
Eu tinha vontade de rever minha avó,
que não via desde que ela adoecera de verdade querendo tirar a roupa e gritando
muito, ou querendo fugir para a rua, e não era mais possível só uma empregada
para cuidar dela.
A clínica era clara e espaçosa. Na
entrada, uma árvore de Natal cheia de bonequinhos, estrelas de papel e outros
pequenos objetos. Havia no ar um cheiro esquisito, de bebê e de velhice,
misturado com desinfetante. Pessoas em cadeiras de roda, em sofás, ninguém
muito vivo nem muito morto. Por uma porta aberta vi uma sala com várias camas,
e numa delas uma delas uma velha do tamanho de uma criança, uma mangueirinha
enfiada no nariz, a boca bem aberta. Imóvel. Encontramos. Ninguém se movia,
ninguém dizia nada, só a enfermeira andava entre as camas, vigiando, ajeitando,
fazendo algum carinho naqueles velhíssimos bebês.
O que sobrara de minha avó
sentava-se numa poltrona ao lado da cama, e sobre seu peito magrinho tinham
amarrado frouxamente um lençol. Minha mãe explicou que porque às vezes,
delirando, ela se levantava e podia cair. Tão pequena estava que os pés
balançavam acima do chão, espiando por baixo da coberta colorida. Estava só de
meias. Tinha encolhido murchado, como uma boneca de cera perto do sol final. Os
olhos eram os mesmo – e já não estavam aflitos. Estavam pasmados. Mas não
parecia infeliz. Pois quando ergueu os olhos para minha mãe, disse:
– Bom dia! Você veio para a minha
festa de quinze anos?
Não sei se me reconheceu, mas sorriu
parecendo muito contente, alguém tinha vindo brincar com ela. E quando me
sentei ao lado dela, disse, preocupada:
– Cuidado, não vai sentar em cima do meu bebê!
Não havia nenhum bebê ali, mas
fiquei quieta. Minha mãe não pareceu estranhar. Entregou alguns pacotes à
enfermeira, ajeitou um ramo de pinheiro com algodão fingindo neve num vaso
sobre a mesa-de-cabeceira. Procurou distrair a velhinha que um dia fora sua
mãe. Mostrou revistas e doces, mas não conversavam de verdade: Vovó falava o
tempo todo sem parecer ouvir o que a outra dizia. Várias vezes repetiu:
–
Os grilos, como estão cantando hoje!
E dirigia-se a umas pessoas que não
estavam ali. Ou estavam e só ela via? Aí eu tive um pouco de medo. Talvez Vovó
agora vivesse num tipo de esconderijo onde não precisava obedecer nem mandar.
Não precisava ser inteligente nem esforçada, nem cumprir nenhuma tarefa. Minha
mãe se afastou por um momento para falar com outra enfermeira, e eu fiquei ali,
fascinada. Nisso minha avó me faz um sinal com ar maroto, eu me levanto e chego
mais perto. Que estranho cheiro o da velhice: mofo, alfazema e segredos. Ela
estende as duas mãos em concha, pede com arzinho cúmplice:
–
Apanha aí, mas com cuidado, não deixa derramar nada... – E arregala muito
os olhos.
Faço o que ela pede, e, cuidadosamente,
atenta, minha avó despeja nas minha mãos algo invisível. Não se vê nada, mas
escuto nitidamente o barulho de algo que se escoa, pedrinhas ou sementes escorrem
no vazio. Depois, quando minha mãe volta, ela pega a mão da filha num jeito
doce e submisso, e diz:
– Mãe, você está ouvindo os grilos?
Naquela noite minha mãe comentava com
meu pai:
–
Que coisa mais triste, mais desumana, ela não está nem viva nem morta, tem
um aspecto horrível. Foi uma mulher tão linda, agora está louca desse jeito.
Que injustiça.
Meu pai só pigarreou, não queria falar.
Emoções o deixavam atrapalhado: ele gostava de tudo medido e resolvido. Minha
mãe teria de moer sozinha aquela grande pedra. E eu não podia fazer nada, eu
era só uma menina.
Peço que ela me leve mais vezes para
visitar Vovó. Minha mãe diz:
– Você é uma menina muito boazinha.
Mas eu não sou boazinha: sou curiosa.
Gosto dessas visitas, dessa avó que virou criança e que os adultos não
entendem. Nessa tarde minha mãe senta junto da janela e Le uma revista. Eu fico
perto de minha avó. A enfermeira entra no quarto, animada como se cuidasse de
um jardim-de-infância cheio de lindas crianças. Bota uma espécie de babador no
pescoço da menina velha, dizendo alegremente:
– Olha o lanchinho! Olha o lanchinho!
E começa a dar bolo e golinhos de leite.
É preciso colocar pedaços de bolo entre os dedos de minha avó, e cada vez
dizer:
– Segura, segura, é bolo. – A velhinha
olha, encantada com aquele jogo, segura o bolo. – Bota na boca, bota na boca!
Ela leva a Mao à boca, indecisa, mas por
fim consegue. Tudo é demorado e complexo. Crio coragem e pergunto à moça:
– Por que a senhora mesma não dá a
comida na boca da vovó?
A enfermeira me olha meio aborrecida,
mas explica:
– É preciso estimular, ela ainda não
está inteiramente dependente. – E prossegue para minha atônita avó: – Agora
mastiga, mastiga!
Não sei de onde a enfermeira tira
tamanha paciência e toda aquela convicção. Não sei se minha avó de verdade não
entende mais nada, ou apenas finge e se diverte com o engano das pessoas.
Inesperadamente, entre duas colheradas daquele bolo com cobertura cor-de-rosa,
ela me lança um olhar esperto. Naquele instante está tão lúcida quanto eu.
Seremos, as duas, cúmplices de algo que ainda preciso descobrir? E ela só está
fingindo?
Finalmente come o bolo todo e toma seu
leite, um processo infinitamente lento e complicado cheio de repetições e
estímulos, como se fosse fazer alguma prova importante no colégio. Quando lhe
botam na mão o guardanapo de papel, é preciso repetir tudo:
– Agarra. Segura bem. É guardanapo. Para
limpar a boca. Limpa a boca!
Minha avó leva a mão à boca e começa a
comer o guardanapo. Minha mãe larga a revista, e sai do quarto quase correndo.
Eu fico vendo a enfermeira brincar com minha avó, fingindo ralhar com ela, e
ainda lhe dar um beijo na testa enquanto tira de sua boca murcha os pedaços de
papel desmanchado. Nisso a velha começa a evacuar mansamente. Agita-se um
pouco, olha a enfermeira como se suas lembranças confusas lhe dissessem que
aquilo não estava direito, mas a moça a conforta, segura carinhosamente a mão
dela e diz:
– Faz, faz o seu cocô, pode fazer. Nós
estamos de fralda, lembra?
Agora eu também não aguento mais. Salto
da cadeira, assustada e triste, e vou para junto de minha mãe, que está
pensativa, parada numa pequena sacada na saleta, sobre a rua. Ficamos de mãos
dadas, quietas como velhinhos e velhinhas que cochilam nas poltronas lá dentro,
junto a outra a outra árvore de Natal incongruente e feia, num silêncio como
algodão molhado. Olhamos a rua onde a vida prossegue ignorando toda a tristeza,
a loucura e o absurdo: gente e carros, e um sol glorioso.
Foi minha última visita a minha avó. E nunca
esqueci. Mas o que realmente me inquietou foi um ou dois olhares dela, diretos
para mim, com um ar de malícia, como a me dizer que os doidos eram eles. Que
ela estava só fingindo. E que aquele segredo era seu último presente de Natal
para mim.
Lya Luft

Nenhum comentário:
Postar um comentário